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20/5/2024     04:00:00

 

 

Condomínio de luxo avança contra quilombo em São Roque/SP

Por: Matheus Santino, da Agência Pública

 

São Roque, no interior de São Paulo, é conhecida como a terra do vinho, contando com tradicionais vinícolas e um roteiro onde turistas podem degustar as bebidas regionais. Cerca de 25 km do centro da cidade, longe dos pontos turísticos, está o bairro do Carmo, que abriga o Quilombo Revolucionário do Carmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atualmente, o quilombo ocupa uma pequena faixa na beira de uma estrada de terra que leva às outras casas do bairro. Na outra ponta da estrada está a portaria de um algoz comum entre os quilombolas e o bairro do Carmo: um condomínio de luxo. 

 

A área ocupada por aproximadamente 700 quilombolas é reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Palmares desde 2000 e está em processo de titulação. Ela não engloba o bairro do Carmo como um todo, que, embora seja reivindicado como território ancestral, ficou de fora do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), uma etapa obrigatória do processo de titulação de territórios quilombolas, feito pelo Incra.

 

Recentemente, o condomínio de luxo, chamado de Patrimônio do Carmo, ergueu um muro nos limites do território que está em processo de titulação. O muro avança pelo terreno de algumas casas dos quilombolas, invadindo parte do território que eles reivindicam como tradicional. Segundo os moradores do quilombo, os responsáveis pelo empreendimento disseram que o muro seria a solução para aumentar a segurança das mansões. Os quilombolas dizem que os empreendedores veem o bairro do Carmo como “um lugar perigoso” e dizem “que os moradores teriam roubado uma das casas de luxo”.

 

Espremidos entre uma linha de trem que corta a região e o muro, os moradores do quilombo se dizem humilhados. Eles veem a construção como um espaço de segregação da área quilombola e do próprio bairro do Carmo, que foi construído em torno de uma igreja de Nossa Senhora do Carmo e das casas de descendentes de escravizados.

 

Por que isso importa?

 

Conflitos territoriais marcam os processos de demarcação de áreas de remanescentes de quilombo no Brasil, embora a Constituição garanta o direito dessas populações às terras ocupadas por seus antepassados.

 

A reportagem mostra como um muro, construído por um condomínio de luxo nos limites de um território tradicional em processo de titulação, se tornou um símbolo da segregação e da violência contra um quilombo, que resiste à especulação imobiliária no estado de São Paulo

 

A construção do muro foi paralisada há alguns meses depois da pressão dos moradores, mas ficou ali, pela metade, perpetuando toda a degradação que ela já tinha causado. O paredão se encontra no final da rua do Cruzeiro, que tem esse nome por conta de um crucifixo colocado por um padre ali, há mais de um século. Ele toma toda a viela Augusto Pedro Platão, nome do pai de Israel Platão, 59 anos, que sempre morou no Carmo. Ele se diz indignado porque o muro foi construído colado à sua casa. 

 

“O bairro do Carmo cresceu na parte de população, só que não aumentou na área. Agora, os bacanas querem encurralar a gente cada vez mais com esse muro”, diz. Andando pela viela que carrega o nome de seu pai, Israel conta que todas as casas ali são de parentes dele, incluindo um quintal de sua falecida avó. Todos foram afetados de alguma forma pelo muro do condomínio, seja por ter tapado a luz do sol ou até mesmo mudado a forma de ir e vir.

 

A construção passa por baixo da caixa-d’água de Israel e acabou com um pomar que ele cultivava, onde seus netos costumavam brincar. “Eles [os construtores do muro] arrancaram mais de 20 pés de banana, pé de mexerica, pé de laranja, destruíram toda a plantação. É uma coisa que deixa a gente muito triste. Meu neto é nascido aqui, sempre gostou de brincar aqui em cima e não pode mais porque agora tem essas lanças perigosas de ferragem. A minha netinha passou ali, quase se machucou.”

Foto aérea / Agência Pública

A área ocupada pelos quilombolas, o bairro do Carmo, a gleba em disputa e o Patrimônio do Carmo ao fundo

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