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31/3/2026      19:25:19

 

 

 

Telões de LED para o Centro de SP? Região precisa é de Zeladoria e Segurança

Por: * Mauro Calliari, doutor em Urbanismo/FAU-USP

 

A chamada ‘Times Square Paulistana’ abre um precedente na Lei Cidade Limpa em troca de contrapartida irrelevante para a região.

Montagem (Reprodução)

O projeto do Boulevard São Paulo foi aprovado pelos representantes da prefeitura (com todos os votos da sociedade civil contrários) na CPPU - Comissão de Proteção à Paisagem Urbana

Dá para compreender o entusiasmo de algumas pessoas com a possibilidade de contar com uma empresa privada que investe no espaço público, diante do desânimo generalizado com o espaço urbano de São Paulo. Aparentemente, a cidade passa a contar com um novo zelador para cuidar do centro. A proponente, a Fábrica de Bares, gerencia vários negócios na região central, como o Bar dos Arcos, o Priceless e o Girondino e agora está interessada em melhorar a ambientação e a segurança ao redor do Bar Brahma, ainda um dos ícones do centro.

 

O projeto do Boulevard São Paulo foi aprovado pelos representantes da prefeitura (com todos os votos da sociedade civil contrários) na CPPU - Comissão de Proteção à Paisagem Urbana.

 

Porque eu considero que esse termo de cooperação não é benéfico para a cidade:

 

Em primeiro lugar, o projeto gera um risco concreto para a Lei Cidade Limpa. A Lei Cidade Limpa é um marco civilizatório na paisagem de São Paulo. Basta olhar as fotos da cidade antes e depois da lei para ver o quanto melhorou a paisagem urbana sem os letreiros gigantes, anúncios luminosos, a profusão de placas e outdoors e os anúncios que cobriam empenas inteiras. Hoje, as fachadas foram aos poucos sendo pintadas e decoradas, anúncios cederam espaço para grafitis e a poluição visual diminuiu consideravelmente.

 

O projeto do Boulevard não chega a ser uma mudança na lei (termos de cooperação são previstos), mas é uma brecha para outras possíveis dezenas de iniciativas semelhantes, cada uma pleiteando painéis publicitários gigantescos em troca de duvidosas melhorias na cidade. O Termo de Cooperação prevê a instalação de quatro painéis enormes de LED no entorno do cruzamento entre São João com a Ipiranga. Esses painéis terão até 25 metros de altura e vão veicular conteúdos com até 30% de mensagens publicitárias.

 

Em segundo lugar, as contrapartidas são minúsculas. Os proponentes irão investir até 6 milhões de reais por três anos em calçadas, bancos, lixeiras, e a reforma da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de monumentos histórico.

 

Ora, a empresa vai investir R$ 39 milhões na instalação de painéis e é de se imaginar que terá lucro com a venda de até 10 cotas de publicidade para os três anos. Diante do orçamento anual da prefeitura, do valor simbólico da região para a cidade e do risco para a Lei Cidade Limpa, a contrapartida prometida de 2 milhões de reais por ano durante três anos chega a ser quase ofensiva de tão pequena.

 

Em terceiro lugar, e talvez o mais importante, a melhoria do espaço público depende menos de dinheiro do que de desenho urbano, ação concreta e constante. As reformas prometidas são ou deveriam ser parte do cotidiano da prefeitura: melhorar calçadas, instalar imobiliário urbano e fazer reformas periódicas do patrimônio tombado. A prefeitura tem recursos e mandato para isso e deve ser cobrada quando não o faz.

 

Mas aí lanço a pergunta: por que a prefeitura não coloca os bons arquitetos da SP Urbanismo ou da Secretaria de Urbanismo para fazerem projetos urbanos melhores para as nossas ruas e calçadas? A própria esquina da São João com Ipiranga foi objeto de uma reforma fraquinha anos atrás que custou quase cinco milhões de reais, mas que não empolgou ninguém e nem gerou a tal ‘ativação’ pretendida.

 

Um bom projeto começa no nível do chão: calçada mais larga, materiais resistentes, antideslizantes e criativos no piso, bancos duráveis e confortáveis, iluminação agradável e funcional, paisagismo bem feito, jardins de chuva, melhorias nas travessias, caminhabilidade, tudo com zeladoria e segurança.

 

A ocupação do espaço público deveria começar com um bom projeto, e não com um painel de LED.

 

* Mauro Calliari é colunista da Folha de São Paulo, doutor em Urbanismo pela FAU-USP e membro da CPPU - Comissão de Proteção à Paisagem Urbana

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