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GESTÃO

14 de setembro de 2026 às 10:15:00

Calor extremo e chuvas concentradas pressionam condomínios a rever parâmetros técnicos

Por: da Redação

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As mudanças climáticas já não são apenas uma questão ambiental ou de conforto térmico. Águas de alagamento invadem condomínio em São Paulo (Reprodução/WhatsApp)

Ondas de calor e chuvas concentradas em poucas horas pressionam ar-condicionado, redes pluviais e impermeabilização — e obrigam síndicos e construtoras a rever parâmetros usados há décadas


As mudanças climáticas já não são apenas uma questão ambiental ou de conforto térmico. Ela está alterando premissas técnicas usadas para projetar, construir e manter edifícios - e, consequentemente, a forma como síndicos e administradores precisam atentar a gestão condominial.


Sistemas de climatização dimensionados para determinadas temperaturas, redes de águas pluviais projetadas para certos volumes de chuva e materiais escolhidos com base em padrões históricos passam a enfrentar condições diferentes das previstas originalmente. Na prática, isso significa contas de energia mais altas, maior risco de infiltrações e a necessidade de repensar a manutenção preventiva.


E o desafio tende a crescer. Em maio de 2026, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou nota técnica mostrando aumento contínuo das ondas de calor no Brasil nas últimas quatro décadas, com intensificação em todos os estados desde os anos 2000. Em 2025, o País registrou sete ondas de calor. Em Quaraí (RS), a temperatura chegou a 43,8°C. No Rio de Janeiro, as máximas ficaram entre 42°C e 44°C. São Paulo atingiu 37,2°C em dezembro, recorde para o mês em 64 anos.


Para Celso Zaffarani, arquiteto e fundador da Zaffarani Design Build, esses números têm consequência concreta para a construção civil — e para os condomínios. “Quando muda a condição climática para a qual um edifício foi concebido, precisamos discutir se os parâmetros usados para dimensioná-lo continuam suficientes. Não é só uma discussão ambiental. É uma questão de desempenho e de custo para quem administra aquele prédio”, afirmou.


Ar-condicionado: a conta muda


Com temperaturas externas mais elevadas e ondas de calor mais frequentes, edifícios podem enfrentar cargas térmicas superiores às consideradas no projeto - o que se traduz em equipamentos no limite, maior consumo de energia e risco de falhas nos dias mais críticos.


“Não é simplesmente colocar um aparelho maior. Precisamos rever a carga térmica do edifício como um todo. Fachada, vidro, isolamento, incidência solar, cobertura e climatização fazem parte da mesma equação”, explicou Zaffarani.


A Agência Internacional de Energia estima que, sem avanços em eficiência, o consumo de energia para refrigeração pode mais do que dobrar até 2050. Para os condomínios, isso significa despesa rateada maior por muitos anos. Daí a importância de investir em desempenho térmico da construção, e não apenas em equipamentos mais potentes.


Quando a chuva de um mês cai em poucas horas


Se o calor pressiona a climatização, as chuvas concentradas criam outro desafio: o escoamento da água. O problema não é apenas o volume total, mas a concentração em intervalos curtos.


Em 2025, Teresópolis (RJ) acumulou 689,4 milímetros de chuva em abril, volume 548% superior à média histórica do mês. Para os edifícios, isso coloca sob pressão calhas, ralos, condutores verticais e tubulações — sistemas que, quando falham, costumam atingir garagens, áreas comuns e unidades do térreo.


“Quando um volume muito grande de água chega em poucas horas, a capacidade de escoamento passa a ser crítica. Precisamos discutir se as bitolas das redes pluviais respondem a esses novos índices”, disse o arquiteto.


Uma falha no sistema pode significar garagem alagada, elevador parado ou área de lazer interditada. Em edifícios comerciais, o impacto pode ser ainda maior: loja fechada, quarto indisponível ou área corporativa interditada. “Em um empreendimento em operação, uma falha não custa apenas a manutenção. É por isso que precisamos olhar o custo ao longo da vida útil, e não só o investimento inicial”, observou.


Materiais, impermeabilização e custo de ciclo de vida


A mudança climática também interfere na escolha e na manutenção dos materiais. Fachadas, coberturas, impermeabilizações e revestimentos externos ficam sujeitos a ciclos mais intensos de calor, radiação, vento e umidade. “Um material que funciona bem em determinada condição pode ter comportamento diferente quando exposto repetidamente a extremos. Precisamos especificar pensando no desempenho real e na exposição que aquele edifício terá”, afirmou Zaffarani.


Isso reforça o conceito de custo do ciclo de vida, quando escolher a solução mais barata na implantação pode gerar despesas maiores de energia e manutenção no futuro. Na avaliação do arquiteto, em condomínios, decisões tomadas em assembleia, pelo menor orçamento inicial, podem pesar no rateio por décadas.


Construir para o histórico já não basta


As transformações climáticas não significam que todo edifício existente esteja inadequado. Indicam, porém, que o setor precisa incorporar novas perguntas ao planejamento e à gestão condominial: qual será a carga térmica em uma onda de calor mais severa? Quanto de água a rede pluvial consegue receber em pouco tempo? Os materiais suportam a exposição prevista por décadas?


“Durante muito tempo, a pergunta central era quanto custa construir e em quanto tempo entregamos. Precisamos acrescentar uma terceira: como esse edifício vai se comportar daqui a 30 ou 40 anos?”, disse Zaffarani.


“Preparar uma construção para um clima mais extremo não é prever o futuro. É criar margem de segurança, eficiência e capacidade de adaptação. O papel da construção civil é antecipar o problema antes que ele apareça dentro do edifício.”


BOX


Cinco pontos do condomínio que entram na discussão com as mudanças climáticas


Climatização: Temperaturas mais altas elevam a carga térmica e podem exigir revisão dos sistemas de ar-condicionado, com impacto na conta de energia.


Redes pluviais: Chuvas concentradas aumentam a vazão sobre calhas, condutores e tubulações, elevando o risco de alagamento em garagens e áreas comuns.


Impermeabilização: Episódios severos de chuva reforçam a importância de projeto, execução e manutenção adequados, especialmente em lajes e coberturas.


Materiais e fachadas: Calor, radiação e umidade mais intensos exigem atenção ao desempenho e à durabilidade dos materiais.


Consumo de energia: Resolver o calor apenas com mais potência de climatização encarece o custo operacional rateado. Eficiência térmica e eficiência dos equipamentos precisam caminhar juntas.

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