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BEM-ESTAR

28 de julho de 2026 às 13:00:00

O condomínio não cria conflitos, ele expõe os atritos da sociedade, diz especialista

Por: da Redação

Mas será que o condomínio está doente ou ele é apenas o espelho de uma sociedade que está cada vez mais individualista e intolerante? (Foto: Arquivo)

Barulho, grupos de WhatsApp, animais de estimação, vagas de garagem e assembleias cada vez mais tensas e com menos participação mostram que os condomínios se tornaram um retrato das dificuldades de convivência da sociedade brasileira. Consultada a respeito pela Folha do Condomínio OnLine, a advogada e síndica profissional Vanessa Munis defendeu que aprender a viver em comunidade será uma das habilidades mais importantes das próximas décadas.


Se você é síndico, subsíndico ou morador atuante, provavelmente, já sentiu na pele o que antes era um problema pontual de vaga de garagem ou de reforma no fim de semana, que se transformou em uma crise de convivência que parece não ter fim. Discussões acaloradas em assembleias, trocas de farpas em grupos de WhatsApp e um clima de desconfiança constante viraram a rotina em muitos condomínios.


Mas será que o condomínio está doente ou ele é apenas o espelho de uma sociedade que está cada vez mais individualista e intolerante? Para a especialista Vanessa Munis, a resposta está na segunda opção. Com mais de 21 anos de carreira e 13 dedicados exclusivamente à gestão condominial, ela afirmou que o grande desafio da administração não está na infraestrutura, mas no comportamento humano.


"O elevador quebra e a gente conserta. A infiltração tem solução na engenharia. As contas, com planejamento, se ajustam. Mas administrar expectativas, emoções e interesses radicalmente opostos é o que realmente exige preparo. O condomínio não cria conflitos, ele revela como a sociedade aprendeu, ou desaprendeu, a conviver", avaliou a advogada e síndica profissional.


O individualismo e a preguiça do diálogo


Dados do IBGE mostram que mais de 84% dos brasileiros vivem em áreas urbanas, e a verticalização nas grandes cidades jogou milhões de pessoas em espaços cada vez mais próximos. No entanto, a proximidade física não gerou aproximação social. Pelo contrário.


A sociedade, com famílias menores, mais pessoas morando sozinhas, o home office consolidado e o envelhecimento da população, cria perfis de moradores com necessidades completamente distintas. Enquanto o jovem quer liberdade para usar a churrasqueira e ouvir música, o idoso busca sossego. Enquanto o pai de família exige regras rígidas para a segurança das crianças, o casal sem filhos vê as normas como "encheção de saco", citou a síndica.


Munis destacou que, nesse cenário, a comunicação virou um dos pontos mais frágeis. "Hoje é mais fácil jogar uma indireta no grupo do WhatsApp para 200 pessoas do que bater na porta do vizinho e conversar. As ferramentas digitais aceleram a informação, mas encurtam a paciência e a disposição para o diálogo construtivo."


Morador que não participa, mas cobra muito


Outro fenômeno que a especialista observa com frequência é a baixa participação nas assembleias, contrastada com um alto volume de cobranças. "As pessoas querem ser ouvidas, mas não querem ocupar o espaço de decisão. Conviver em comunidade exige corresponsabilidade. Não adianta só reclamar das taxas ou da gestão se você não vota, não se candidata e não colabora para a construção dos consensos. Isso não é só um problema de condomínio, é um sintoma da nossa sociedade: todos têm opinião, mas poucos têm compromisso", lamentou a profissional.


O condomínio como escola de cidadania


A especialista, que acaba de lançar o livro "A Arte de Se Posicionar no Ecossistema Condominial", defende que os desafios da convivência vão muito além dos muros dos empreendimentos. "Quando conseguimos construir respeito, diálogo e confiança dentro de um condomínio, estamos fortalecendo a sociedade como um todo. O condomínio é uma pequena comunidade. Se a gente não aprende a negociar com o vizinho de parede, como vamos negociar com o colega de trabalho ou com o governo? A crise da convivência começa na porta de casa, mas a solução para ela também", concluiu Munis.

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